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O livro dos cachimbos
Um olhar sensível sobre a Cracolândia
O livro dos cachimbos, do fotógrafo e psicanalista Léo Ramos Chaves, traz imagens impactantes da diáspora imposta às pessoas em situação de rua no centro de São Paulo
Com lançamento marcado para a segunda-feira, 16 de dezembro, a partir das 18h, no Bar São Cristóvão, na Vila Madalena, O livro dos cachimbos reúne três impressionantes ensaios fotográficos articulados entre si e relacionados à chamada Cracolândia paulistana.
Os ensaios “Revoada”, “Cachimbos” e “Cartográfica da Cracolândia” resultam de imagens capturadas por Léo Ramos Chaves entre 2022 e 2024, tanto no calor das fortes impressões provocadas pela movimentação caótica dos bandos de pessoas expulsas pela prefeitura da área que ocupavam no centro paulistano, durante a pandemia de covid, quanto de uma abordagem mais reflexiva aos artefatos simples da dependência química e outros resíduos aleatoriamente largados no chão na fuga e, posteriormente, ao vazio em torno dos prédios degradados das ruas abandonadas à força.
Três textos curtos explicam, contextualizam as imagens e, sobretudo, a partir delas propõem novos enfoques para a dependência química, seu entrelaçamento com os sonhos e o desejo e os múltiplos sentidos e desafios da metrópole, seus territórios e seu futuro ameaçador.
O próprio Léo Ramos Chaves assina “O cachimbo e o desejo do homem”, uma apresentação corajosamente reveladora do trabalho contido no livro e de si mesmo, enquanto o psicanalista Rodrigo Alencar é o autor de “Entre sonhos, fumaça e torpor” e o arquiteto e urbanista Denio Benfatti assina “Demasiado humanos”.
Serviço
A publicação é da Aretê Editora (areteeditora.com) e o projeto gráfico, capa e diagramação são da designer Mayumi Okuyama.
O Bar São Cristovão fica na Rua Purpurina 370, esquina com a Rua Fidalga, na Vila Madalena/Pinheiros.
R$ 110,00
Sobre o autor
Críticas & comentários
Enxergar para pensar caminhos
Maria Guimarães
Fluxo, revoada. São nomes poéticos que refletem movimento, desterro. Estão por trás da profunda miséria humana que habita as cracolândias. Os habitantes desses povoados nômades não são livres, são desgarrados.
O olhar de Léo Ramos Chaves traz o elemento fundamental que fica quase sempre esquecido quando os paulistanos olham para o outro lado, tapam o nariz, fogem com medo: são pessoas. Entre ter medo, chamar a polícia ou fugir, ele opta por enxergar a vizinhança.
A chegada dos “passarinhos miseráveis”, vista pela janela, revela figuras alongadas pelas sombras. Uma caminhada pesada, silenciosa, fúnebre, cada vulto carregando seus parcos pertences. Por baixo dos cobertores, gorros, capuzes, bonés, o autor enxerga almas. E desce de seu posto de observação para compartilhar humanidade, adquirir cachimbos que registra como a representação de seus artífices e usuários. As imagens têm um quê de artefatos arqueológicos destacados de seu contexto. Um quê de retratos para fichas policiais, de frente e de perfil. Um convite irresistível a pousar o olhar e perceber a centralidade daqueles objetos no desejo avassalador que os torna o foco da existência. Imaginar a manualidade sôfrega que aproveita o que houver de disponível para construir esses frágeis veículos entre pedra, fogo e corpo. Corpos que, no processo da adição, vão também ficando descarnados.
Seguidamente expulsa pela cidade, nas marés que a levam e trazem essa população deixa para trás outros resíduos de existência, que pontuam este livro. Adornos que trazem da outra vida, talvez próxima e tão distante, cacos, isqueiros. O fotógrafo registra. E medita.
Apreende e compreende, por meio da própria experiência e dos ofícios que construiu. Enquanto isso, a cidade se defende. Muros se erguem, figurados e literais. Casas perdem portas, selam janelas. Ficamos cegos.
Mas para pensar caminhos, é preciso enxergar. Está aqui o convite.



