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João Carlos Salles é o vencedor do Jabuti Acadêmico em filosofia

ago 7, 2025

Gatos, peixes e elefantes: a gramática dos acordos profundos, editado pela Aretê, é o livro vencedor da categoria Filosofia, na segunda edição do Prêmio Jabuti Acadêmico.

 

Os vencedores do Jabuti Acadêmico de 2025 foram anunciados em festa organizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e transmitida ao vivo pelo YouTube, na noite da terça-feira, 5 de agosto, em São Paulo, num Teatro Sérgio Cardoso completamente lotado. Autores e editoras das 27 melhores obras da produção científica, técnica e profissional, lançadas em 2024, foram celebrados, depois de uma avaliação rigorosa de mais de 2 mil trabalhos por comissões julgadoras especializadas.

Professor de filosofia e reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) por dois mandatos (2014-2022), João Carlos Salles é um autor maduro, com 18 livros já publicados, e reconhecido como um dos principais estudiosos da obra do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. Gatos, peixes e elefantes: a gramática dos acordos profundos é fruto das reflexões e estudos a que pôde se dedicar por um ano inteiro num pós-doutoramento na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, sob a supervisão do filósofo e amigo Ernest Sosa, após encerrar o segundo mandato na reitoria da UFBA.

Salles debruça-se neste livro sobre a linguagem, o conhecimento e os fundamentos do pensar filosófico a partir da investigação do pensamento de Wittgenstein no que diz respeito ao tema dos desacordos e acordos profundos que permeiam as interações humanas. Serve-lhe de importante fio condutor, ao dialogar com Robert Fogelin (1932-2016) e rebater sua atribuição a Wittgenstein, em 1985, da tese de que “desacordos profundos não poderiam ser resolvidos racionalmente, uma vez que, com eles, nos confrontaríamos com princípios, em algum sentido, básicos”, o exame da conturbada relação entre o filósofo austríaco e o economista italiano Piero Sraffa.

Registre-se que tal exame se vale da  extensa correspondência entre Wittgenstein e Sraffa e soma novas evidências para Salles afirmar que, em texto algum do austríaco, encontra-se a tese tal como enunciada por Fogelin. “Todavia, ela parece poder ser reconhecida em toda parte, o que nos motivou a uma busca dessa tese perdida (…), em diversos momentos de sua obra”,  diz (página 14). Nesse percurso, o relato dos embates entre Wittgenstein e Sraffa, por Salles, ganha uma tal vivacidade que não é preciso ser íntimo das proposições filosóficas de Wittgenstein para se acompanhar com enorme interesse os desdobramentos de uma relação que beira quase o impossível  — e, entretanto, perdura por anos.

O livro de João Carlos Salles, de todo modo, não provoca reflexões válidas apenas para  parte do século XX. É do hoje que ele também fala. E nesse sentido, suas primeiras linhas são promissoras. “A violência quase não provoca espanto nas redes sociais. como se uma brutalidade ordinária fosse nossa segunda natureza. Nesse espaço concreto, aboliram-se as distâncias. Não temos apenas notícias remotas ou tardias de guerras travadas alhures. Em um permanente aqui e agora, ‘em tempo real’, presenciamos conflitos armados, mortes, preconceitos, agressões; assistimos a violências diversas contra pessoas, animais e o planeta, como se escutássemos uma briga entre vizinhos. Mais ainda, presenciamos essa brutalidade e dela participamos, pois as redes são um palco no qual também atuamos, quer com silêncios e recusas, quer com manifestações e adesões — um palco cujo centro até figurantes sem fala imaginam ocupar”.

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As palavras soam como um convite irrecusável para um percurso instigante. E certamente quem aceitar se sentirá ao final bem recompensado.

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Faltou dizer que João Carlos Salles, entre unúmeros outros títulos e atividades, foi presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), da Sociedade Interamericana de Filosofia (SIF), e membro Comitê Diretivo (2024-2028) da Fédération Internationale des Sociétés de Philosophie (FISP). Também é membro titular fundador da Academia de Ciências da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia. É coordenador do novo INCT Ciência e Democracia (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).